Lean Startup: filosofia e ferramental

Lean Startup: filosofia e ferramental

 

“Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito.” 

Peter Drucker

A filosofia Lean Manufacturing da Toyota  nasce em um país em busca da reconstrução econômica após sua derrota em uma guerra mundial. A escassez de recursos enfrentada pelo Japão após a II Grande Guerra levou a indústria automobilística à buscar alternativas factíveis e viáveis para retomar a produção num modelo adequado à sua situação. Não era possível simplesmente copiar o Modelo Fordista de Produção em pleno vapor nos EUA onde os recursos eram abundantes. Sua situação requeria um modelo alternativo, que acabou nascendo de uma filosofia cuja base foi a combinação da redução do desperdício com foco na criação de valor ao cliente.

As metodologias Lean acabaram aportando por aqui no início dos anos 1990 em um contexto de abertura comercial e reestruturação produtiva, e foram rapidamente adaptadas à realidade brasileira e absorvidas por empresas de diversos portes e setores. Filosofias e metodologias de qualidade total (5S), just-in-time, Kanban, Poka-Yoke, entre outras, se tornaram conhecidas da maioria dos gestores e foram amplamente disseminadas nas escolas de administração.

Mas afinal, o que o Lean Manufacturing tem a ver com o Lean Startup?

Após a bolha do ponto.com em 2001, a situação das Startups se alterou consideravelmente, em especial em relação aos fluxos de financiamento (que encolheram significativamente), bem como nas expectativas dos agentes econômicos em relação aos riscos de se investir nesse tipo de negócio. De maneira geral, vivenciou-se um ciclo de escassez de recursos e aversão ao risco que trouxe como resultados positivos a criação de metodologias mais adequadas para lidar com empresas nascentes de base tecnológica, minimizando não somente os riscos, mas principalmente as perdas financeiras associadas às tentativas de se criar soluções inovadoras.

Já falamos um pouco da base dessas metodologias quando comentamos o livro de 1996 de Geoffrey Moore (Crossing the Chasm), que vai inspirar Steve Blank, que, por sua vez, trará os insights relevantes que farão com que Eric Ries desenvolva os conceitos de Lean Startup. A ideia geral é que startups tendem a falhar e para minimizar os custos (psicológicos e financeiros) dessas falhas, os empreendedores devem tratar a startup como um experimento científico e basear suas ações em processos que buscam a minimização dos desperdícios de recursos e redução do tempo de aprendizado.

Para apoiar essa filosofia, Eric Ries e, mais tarde, Ash Maurya (Running Lean), apresentaram algumas ferramentas hoje disponíveis para aplicação em projetos de diferentes naturezas. A maior parte das metodologias e conceitos são adequados às empresas de software, mas a filosofia do teste e validação de hipóteses também podem ser apropriadas por empresas de tijolo e argamassa, respeitando-se os limites dessas experiências. Não há uma promessa de não se gastar dinheiro, mas de se gastar o mínimo possível para se chegar às respostas necessárias para desistir, pivotar, ou seguir adiante com o projeto.

Aqui vamos introduzir o Lean Canvas de Ash Maurya e o Validation Board de Eric Ries:

Lean-Canvas
Lean Canvas – Ash Maurya

 

Ash Maurya é um investidor serial especializado em empresas de software e um dos pioneiros da filosofia Lean Startup e que contribuiu para o aperfeiçoamento das metodologias ao adicionar sua visão de negócios e desenvolver um ferramental específico e útil para orientar as startups em seus passos iniciais. Apesar da preservação da estrutura básica, percebe-se, inicialmente, diferenças expressivas em relação ao conteúdo de alguns dos nove campos do Lean Canvas, quando comparado ao Business Model Canvas de Alexander Osterwalder e Yves Pigneur.

A primeira diferença que chama a atenção é que no Lean Canvas, devemos apontar o problema que buscamos resolver, bem como a solução específica que criamos (nenhum desses pontos é tratado no canvas convencional). Outro ponto é que, ao invés de olharmos para o front-end (lado direito – criativo – entrega de valor) e o back-end (lado esquerdo – racional – criação de valor) da nossa empresa, olhamos para o produto (lado esquerdo) e o mercado (lado direito).

Além desses blocos iniciais, teremos outras novidades, dentre as quais destacamos a tentativa de descrever um processo dinâmico (de um projeto), ausente no Business Model Canvas – cuja função é descrever o modelo de operação desejado de nossa empresa no futuro (mais um ponto de chegada, que de partida). Essa ideia fica clara nos blocos de Canais (aqui a preocupação é aquisição de clientes) e Métricas de Tração da startup, que vai nos forçar a pensar em métricas relevantes e abandonar as famosas métricas da vaidade, que tanto iludem os empreendedores.

São também adicionados ao Lean Canvas algumas variáveis relevantes aos investidores, cujas principais (além das métricas de tração), são a Vantagem Injusta (Unfair Advantage) – no qual o objetivo é descrever alguma barreira de proteção ao investidor, que precisa saber se a solução pode ou não ser copiada com facilidade – bem como um certo aprofundamento na viabilidade econômica do projeto ao se preocupar não somente com os custos operacionais e fluxos de receita, mas com preços e margens do produto (Custos x Receitas).

O Lean Canvas aliado à experimentação cientifica acabaram consolidando-se em uma série de softwares e aplicativos como o LeanLaunchLab , mas há também soluções analógicas (impressão e post its) que pode auxiliar as startups em seus experimentos para validação de hipóteses e prova de sua tese de negócios.

Quadro-de-Validação

O Validation Board e seu irmão mais novo o Experiment Board (lançado recentemente) nos ajudam a organizar as ideias, planejar, executar, registrar e avaliar os resultados de nossos experimentos de campo. Não cabe aqui explicar a ferramenta, pois há no link vídeos tutoriais que podem lhe ajudar a utilizar corretamente a ferramenta, mas apenas apresentá-la e recomendá-la.

O importante é perceber que há metodologias e ferramentas que podem auxiliar em nosso caminho para o desenvolvimento de uma startup, e que essas metodologias foram criadas em resposta a um problema vivenciado tanto por empreendedores, quanto por investidores, e que ignorá-las é, no limite, uma presunção e um sinal de cegueira empreendedora a ser combatida em benefício próprio. Não podemos mais nos dar ao luxo de confiarmos somente em nossos instintos e precisamos recorrer à ciência aplicada em nossos projetos para que possamos aprender em um prazo mais curto e utilizando o mínimo de recursos possível.