Oportunidade de Negócio: identificando um problema

Oportunidade de Negócio: identificando um problema

 

“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.”

Carl Rogers

Há menos de 50 anos, o Brasil era claramente uma terra de oportunidades. Apesar da ultrajante desigualdade de renda que envergonhava e ainda envergonha qualquer pessoa civilizada, o tamanho da população de um país continental permitiu que nossa economia se expandisse às maiores taxas registradas em nossa história (e acima da média mundial). Estávamos construindo uma economia moderna praticamente do zero e tudo ainda estava por ser feito.

Minha mãe graduou-se e começou a lecionar na Unicamp aos 23 anos, meu pai, com menos de 30 anos, montou uma revendedora de motos Honda, que em seu segundo ano de vida foi considerada campeã de vendas nacional. Havia, ao menos para uma parte dos brasileiros, infinitas possibilidades. A expansão da indústria e a revolução da agricultura tornaram acessíveis uma cesta de consumo completamente desconhecida aos nossos avós e as novidades não paravam de surgir, agora acompanhadas das mídias de massa (rádio e TV), da propaganda e do marketing.

Infelizmente, esse mundo, tão próximo da lembrança de alguns, praticamente desapareceu na mesma velocidade que floresceu. Fomos atropelados pela história, colocados à sua margem e lá ficamos por quase duas décadas antes que pudéssemos vivenciar um novo período de aceleração econômica. Uma aceleração um tanto errática e não tão intensa quanto aquela vivenciada por meus pais, mas com características diferentes e que, ao fazer emergir uma nova classe de consumidores, gerou também muitas possibilidades de negócio.

Estamos hoje em meio a uma crise de proporções mundiais, que pode, dependendo da intensidade e da duração, jogar de volta à pobreza parte das pessoas que dela conseguiram escapar na última década. Uma tragédia social que devemos lutar ao máximo para evitar. Mas apesar de nossas mazelas, uma parcela não desprezível das pessoas hoje vive e consome como qualquer cidadão de classe mundial dos países desenvolvidos.

Acredito que é nos períodos de crise, que não foram poucos em nossa história, que a nossa criatividade foi forjada. Superar as crises e as incertezas fez de nós, brasileiros, empreendedores por natureza. Até a pouco tempo atrás, lidávamos com isso com o nosso “jeitinho”, mas hoje, acredito, podemos usar nossas competências únicas para criar soluções inovadoras.

A questão é que apesar de, claramente, haver mais oportunidades de negócio em tempos de prosperidade, também é verdade, que nos tempos de vacas magras damos mais atenção à nossa gestão e vazão à nossa criatividade. Problemas antes mascarados pela fartura (e possibilidade do desperdício), agora emergem, evidenciando pontos fracos camuflados e abrindo uma nova frente de ação.  A competição aumentará, os mais fracos infelizmente sucumbirão, mas os que permanecerem e aprenderem ao superar as dificuldades, sairão fortalecidos.

Numa economia de Cauda Longa e estagnada como a nossa, as oportunidades de negócio não são tão evidentes, mas a melhor forma de procura-las é observar com atenção. A volta por cima da Apple, que em breve deve se tornar a primeira empresa um valuation de trilhão de dólares, se deu pela visão e capacidade de Steve Jobs para reinventar o que já queríamos.

O novo Modelo de Negócios da Apple no momento do que podemos chamar com ressalvas de sua travessia do abismo, se deu com o lançamento do Ipod, o primeiro gadget da Apple após a retirada do Computer Co de seu nome e alavanca do pivot que a projetou ao mercado de massa. Steve Jobs não era exatamente um adepto do Design Thinking e apostava em seu feeling apurado para criar as soluções que, segundo ele, as pessoas ainda não sabiam que queriam.

Oportunidade de negócios

Se observarmos a cronologia apresentada, perceberemos que as pessoas comprovadamente adoravam a ideia de ouvir música em seus walkmans, mas haviam ficado desamparadas com o advento do CD, que apesar da qualidade superior às fitas cassete, não serviam para dispositivos móveis que vibravam[1].

Em 1995 o formato MP3  para compressão de arquivos de música é lançado no mercado e, em 1998, a Coréia lança o primeiro MP3 Player do mundo. Nesse período, inicia-se a construção da Cauda Longa da música e a poderosa e definitiva (sem seu crivo poucos tinham acesso ao mercado) indústria fonográfica, com seu poder econômico, tenta frear o avanço do inevitável.

São dados os primeiros passos em direção a Internet 2.0 e a ideia de compartilhamento de conteúdo (peer-to-peer) ganha força e uma famosa startup com esse modelo emerge para ser em pouco tempo devastada. O Napster (que ainda opera, mas com um modelo tradicional de venda de música) deixou claro que as pessoas gostavam das músicas, mas não necessariamente dos discos e estavam dispostas a baixar parte das obras, sem ter interesse no seu conjunto. Apesar de seu esforço, o Napster não conseguiu chegar a um acordo com a indústria fonográfica e foi fechado por questões jurídicas durante um tempo.

Steve Jobs com sua intuição, seu poder de observação, sua visão de negócios e seu prestígio (não imagine que qualquer um consegue sentar com a indústria fonográfica e chegar a um acordo), conseguiu dar um passo que outros ainda não haviam dado. Criou um Modelo de Negócios inovador que permitia ao usuário vivenciar uma nova experiência, ao adquirir um aparelho que finalmente permitia a mobilidade total e ainda ouvir somente o que se queria, de maneira legal e por um preço acessível. Steve Jobs amarrou todas as pontas soltas e criou o que as pessoas queriam, projetando sua marca (que durante muito tempo foi sinônimo de qualidade em diversos nichos) para o mercado de massas.

A chave do sucesso da Apple foi sua empatia. Sua capacidade de perceber o que queríamos, antes mesmo de sermos capazes de dizer por nós mesmos. Olhar atentamente, perceber as dores e aquilo que deixa nossos potenciais clientes felizes é um excelente guia para buscarmos oportunidades de negócios. Nossas próprias dores muitas vezes são os catalisadores dos processos empreendedores e não devem ser desprezadas. É importante lembrar, que existem ferramentas e metodologias para nos auxiliar na validação de nossas hipóteses e que não devemos confiar somente em nossa intuição.

Não adianta estarmos à frente do nosso tempo, temos de estar precisamente nele, caso contrário, nossa solução poderá falhar, como falharam muitas outras ideias sensacionais. E nada melhor que observar com atenção e se colocar na posição do seu potencial cliente.

Mas isso só não basta, é preciso ter clareza do job-to-be-done e de quais são as alternativas que ele tem para resolver os problemas que você busca auxiliá-lo a resolver. Para se ter clareza da oportunidade de negócio é preciso observar tanto a demanda, quanto à oferta e como fazer isso será tema do próximo post.

[1] Eu amava pedalar ouvindo meu Walkman, mas isso não funcionava com um Discman.