Por que deveríamos tratar nossa startup como um projeto?

startup como projeto

Por que deveríamos tratar nossa startup como um projeto?

 

“Não queira resolver todos os problemas no primeiro dia.”

Fred Wilson

 

Antes de empreender, havia feito uma especialização em Gestão e Estratégia de Empresas, gerido grandes projetos sociais, tanto no setor público, quanto em parcerias público-privadas e trabalhado na gestão de uma organização sem fins lucrativos com atuação nacional, cuidando da parte administrativa e financeira. Por isso, acreditava que os conhecimentos e a experiência em gestão que havia adquirido seriam úteis e que eu estava preparado para tocar meu próprio negócio.

Parte por inexperiência e parte por arrogância, cometi diversos erros que, somados a uma situação inesperada em um contrato importante, forçaram a interrupção do meu primeiro negócio. Quebrei!

Apesar da falha desastrosa, fui socorrido por minha família e consegui me manter vivo sem precisar retornar ao mercado de trabalho como empregado.

Após esse primeiro fracasso, fiz uma segunda tentativa de empreender que acabou se frustrando antes mesmo de começar, por desentendimentos entre os sócios.

Nesse momento de incertezas, acabei “pegando carona”[1] no projeto da minha companheira Silvana Santos, que também buscava uma transição na carreira profissional, havia se interessado pelo tema do crowdfunding e resolveu fazer uma incursão nesse campo.

Estava nascendo a Soul Social, no interior do Estado de São Paulo, como uma Plataforma de Crowdfunding com a missão de auxiliar pessoas empreendedoras a concretizar suas ideias e viabilizar projetos.

Nosso foco eram os projetos sociais, esportivos e culturais e logo percebemos que estávamos abraçando um grande desafio. As pessoas por aqui não sabiam o que era crowdfunding, não tinham ideia de como desenvolver estratégias de marketing digital e tinham muita dificuldade para organizar suas ideias a ponto de torna-las atraentes para os apoiadores.

Nesse momento nasceu nossa vocação para ensinar e demos início a um grande mergulho no mundo do empreendedorismo, através da educação empreendedora. Esse desafio nos levou a percorrer os caminhos que nos trouxeram até aqui hoje, criando uma Incubadora Virtual de Projetos.

O fato é que meus conhecimentos em gestão de empresas foram menos úteis que minha experiência em gestão de projetos, ao menos até esse momento, no qual ainda buscamos o encaixe entre o problema e a solução.

Por que uma startup se parece mais com um projeto que com uma empresa?

Enquanto uma empresa é composta por diversas operações contínuas, um projeto se caracteriza por ter um escopo, um cronograma, um orçamento e por entregar algo específico ao final. Tem um começo, um meio e um fim.

O fato é que mesmo transcorridos 4 anos desde o início do nosso “negócio”, a cada ano, ele se reinventou para cumprir sua missão e, a cada ano, iniciamos um novo projeto. Um projeto consistente do ponto de vista de seu propósito, da sua missão e seus valores, mas que se transformou profundamente, assim como nós, desde o seu primeiro dia de vida.

Nossa principal tarefa ao longo desses anos de busca foi coordenar os recursos disponíveis para tentar alcançar nossos objetivos e nossas metas, executar ações, avaliá-las e aprender com elas.

O que percebi é que, se eu não tenho realmente uma operação em andamento e preciso aprender o máximo possível, no menor tempo possível, pensar como um gestor de empresas não facilita esse processo.

Pensar como um projeto facilita o aprendizado

Por outro lado, se penso em termos de projeto, consigo aprender mais, me focar no presente e reduzir a ansiedade natural do negócio nessa fase inicial que precede o encaixe entre o problema e a solução.

Projetos nos ajudam a pensar em etapas

Invariavelmente, quando desenvolvemos uma ideia de negócios, começamos por nossa visão de futuro. Imaginamos ou projetamos nossa ideia num tempo futuro, a enxergamos funcionando com todas as suas características mais sofisticadas e, muitas vezes entendemos erroneamente que esse será o seu começo.

Um dos trabalhos que desenvolvemos com os empreendedores que chegam até nós é o de ajuda-los a simplificar sua ideia, alcançar a essência do negócio para poder dar início ao processo que permitirá que ele alcance sua visão de futuro em algum momento à frente.

A cabeça de um gestor de projetos funciona naturalmente assim, desmontando as coisas, encontrando os encadeamentos, organizando as informações e definindo as ações necessárias para concretizar os objetivos e tornar as metas acionáveis.

Precisamos simplificar e, mais que isso, compreender qual é núcleo duro do nosso negócio, o que garantirá na prática sua competitividade e possibilitará sua sustentabilidade no tempo; e começar por aí.

Projetos nos mantém com foco no presente

Uma das principais fontes de estresse e de infelicidade é não vivermos no tempo presente. Se vivemos no passado, nos tornamos melancólicos e depressivos, se vivemos olhando para o futuro, nos tornamos ansiosos e estressados.

Quando conseguimos definir nossa visão de futuro e compreender os passos que nos guiarão até ela, podemos, ao menos em grande parte do tempo, parar de pensar nesse tempo futuro e nos concentramos na execução das tarefas programadas e necessárias para atingi-lo, que precisam ser completadas no tempo presente.

Um grande alívio de tensão nessa etapa do projeto em que ainda temos pouco de concreto e um faturamento aquém do necessário.

Projetos limitam o consumo de recursos

Quando definimos à priori o que faremos, por que faremos, como faremos, quando faremos, quem será o responsável e quanto isso irá custar, reunimos forçosamente um conjunto de informações que nos ajudam a prever e, até certo ponto, limitar o consumo e melhorar a alocação dos recursos de que dispomos.

Nesse momento no qual ainda, provavelmente, estamos financiando nossa ideia com recursos próprios (Bootstrapping), evitar o desperdício será um grande aliado para ampliar as chances de encontrarmos um plano que funcione antes de ficarmos sem dinheiro.

Projetos geram lições aprendidas

Por último, mas não menos importante, os projetos geram lições aprendidas. Nos permitem encontrar com facilidade as ações que não foram executadas, que foram mal executadas, bem como aquelas que deram certo e aquelas cujos resultados foram diferentes do esperado.

Se o foco de uma startup é o aprendizado, nada melhor que ser capaz de localizar os erros e os acertos com facilidade e corrigir a rota sempre que necessário.

Ao contrário da visão de muitos empreendedores contrários ao planejamento, acredito que, apesar de consumir mais tempo, pensar antes de agir não só economiza recursos, como também aumenta as chances de a empresa prosperar.

Amarrando tudo

Gosto sempre de lembrar que o grau de sofisticação do planejamento deve ser compatível com as características do projeto. Não há a necessidade de detalharmos grandes períodos de tempo, mas precisamos saber o que buscamos e como esse futuro se parecerá para poder desmontá-lo e cria-lo, um passo de cada vez.

A verdade é que sem planejar, seremos menos produtivos, menos eficientes e aprenderemos menos.

Enfim, os conhecimentos de gestão de projetos não são incompatíveis com as metodologias ágeis e podem fazer parte do ferramental utilizado pelos empreendedores durante a implantação do negócio e mesmo durante o seu desenvolvimento.

 

[1] Fui convidado a fazer parte do projeto que era um sonho da minha companheira e acabei entrando de cabeça num mundo que conhecia por outro ponto de vista. Foi uma das boas coisas que me aconteceram nessa vida.