Provando sua tese de negócios

Provando sua tese de negócios

 

“Ideias ousadas são como as peças de xadrez que se movem para a frente; podem ser comidas, mas podem começar um jogo vitorioso.”

Johann Goethe

 

Falhar é indissociável do empreender. Não há como superar nossos limites, sem eventualmente falhar. Um judoca sabe que para aprender a lutar, terá antes de aprender a cair. Sabemos que 9 em cada 10 startups irá falhar e que daquelas que superam seus momentos iniciais, apenas 4 de cada 10 irá implantar a ideia inicialmente pensada. Ainda assim, achamos que somos esse 0,4% que vai começar e terminar firmes e focados em uma ideia brilhante. Mas por que?

Nosso cérebro pode ser nosso aliado, mas também nosso maior inimigo. Nos julgamos infalíveis e somos incentivados a pensar assim desde pequenos. Somos educados a não falhar e, quando falhamos, incentivados a minimizar nossos erros. Criamos um mundo de fantasia e até reconstruímos lembranças nas quais passamos a acreditar como verdades que, de fato, nunca aconteceram. São mecanismos de sobrevivência que nos ajudam em vários momentos, mas que devemos abandonar se desejamos empreender.

Persistência é uma virtude, mas persistir no erro é estupidez. Em minha experiência como empreendedor, professor de empreendedorismo e mentor de empreendedores, chamo o fenômeno da inflexibilidade e fé exagerada em si mesmo de “cegueira empreendedora”, e ela é muito mais comum do que pensamos. Eu já passei por isso e sei o quão perigoso pode ser.

Aqui você me pergunta: mas se assumirmos de antemão que as chances de estarmos errados superam em larga margem as chances de estarmos certos, por que então, afinal, iremos empreender? Penso que cada um de nós deverá encontrar dentro de si seu propósito, aquilo que o impulsiona em direção ao desconhecido e que o impele a assumir os riscos de sua jornada. Não há aqui, certo ou errado, mas, em minha opinião, seu propósito não deve se restringir a ganhar dinheiro.

Se estamos conscientes de nossos limites e de que jogamos um jogo em que poucos prosperam, nós podemos aumentar nossas chances de sermos bem sucedidos?

Sim, podemos. Se pensarmos na definição de uma startup de Steve Blank verificaremos que ele diz que uma startup é uma organização temporária em busca de modelo de negócios e escalável e repetível. Mas afinal, em que isso nos ajuda nesse momento de angústia?

O que ele está nos dizendo é, falhe rápido e falhe barato! Falhar rápido vai nos economizar tempo e dinheiro e vai acelerar nosso aprendizado. Uma startup é uma organização em busca de aprendizado e não de ganhar dinheiro, ainda que ganhar dinheiro seja parte do processo de aprendizado. Precisamos, assim como o judoca, aprender a cair. Mas cair em um ambiente controlado, e de um jeito que possamos nos levantar rapidamente e tentar outra estratégia. Como no pensamento effectual, devemos avaliar os riscos aceitáveis, antes de projetarmos os ganhos desejados.

Trata-se de orientar nossos esforços na busca pelo aprendizado. Como coloca Eric Ries, em seu livro Lean Startup, o ciclo de aprendizado ótimo deve coordenar velocidade, foco e aprendizado. Se tivermos velocidade e foco, mas não aprendizado, correremos em círculos. Se tivermos foco e aprendizado, mas formos lentos, ficaremos sem dinheiro. Se tivermos velocidade e aprendizado, mas não isolarmos corretamente as variáveis (foco), corremos o risco de otimizar nossa solução prematuramente.

Ciclo-Aprendizado-Ótimo

Provar nossa tese de negócios é o nosso objetivo. Tornar as hipóteses em fatos, uma a uma e encontrar um modelo de negócios repetível e escalável, nossa meta. Para isso, devemos encarar nossa startup como um grande experimento científico e coordenar nossos esforços para montar pequenos experimentos que nos ajudem a validar as hipóteses que fundamentam nossa tese de negócios. Precisamos para isso isolar as variáveis, pensar em métricas e variáveis de controle que nos ajudem a processar os dados, excluir falsas conclusões e avançar.

Não podemos trabalhar com suposições, devemos sair do prédio e investigar. Conhecer nossos segmentos de clientes, suas dores e seus sonhos, seus problemas e o trabalho que ele tenta executar. Conversas, entrevistas em profundidade, pesquisas etnográficas, iscas como materiais educacionais e webinars, campanhas direcionadas, plataformas Beta e uma infinidade de ferramentas podem ser acionadas ao longo desse processo. Por isso que digo, você não precisa ter um plano de negócios, mas não pode abrir mão de planejar.

O que é apenas uma hipótese e o que é fato em seu modelo de negócios? Antes de acreditar que tem uma boa ideia, prove-a. Antes de ficar cego, pense que sua startup é um experimento. Aprenda a cair, para poder se levantar mais forte e mais sábio.